sexta-feira, setembro 20, 2013

Visão e Ilusão

Até o início do segundo tempo, o Flamengo estava confortável: ostentava o 12º posto do campeonato e, a seis pontos do Atlético Paranaense, via bons motivos para flertar com o G4. No intervalo, era possível ver rubro-negros fazendo chacota com os rivais vascaínos: cartazes pediam a permanência de Dinamite e avisavam que faltava pouco para o rebaixamento.
Com o jogo próximo do fim, a torcida chamava o time de sem-vergonha, naquele velho coro imitado de um sucesso de Ivete Sangalo. Somando-se, ainda, a vitória do Bahia (acontecida pouco mais tarde), o Flamengo via o G4 se distanciar com os três pontos que cedera ao Furacão.
Na protocolar entrevista coletiva pós-jogo, veio a surpresa: Mano Menezes se demitia. E encerrava a reunião, evitando, assim, os questionamentos.
E quando não há respostas, surgem as especulações. Em poucos instantes, já circulavam na mídia na mídia teorias sobre um possível elo entre a demissão de Mano e a renovação (ou sua falta) de Tite no Corinthians.
Em seu pronunciamento, o último comandante da Seleção ponderou: "Senti no resumo do jogo de hoje que não consegui passar para esse grupo aquilo que penso sobre futebol. E quando um técnico não consegue fazer isso, sente que o seu time está estagnado e as coisas se repetem, precisa sempre falar as mesmas coisas e cobrar as mesmas coisas, é porque ele precisa sair. Com essa visão, com essa ideia, eu deixo o cargo".
Cada um sabe de si, mas as dúvidas surgem: ao fim do primeiro tempo, Mano se sentia confortável, achava que estava conseguindo passar para o grupo aquilo que pensa sobre futebol?
Em quarenta e cinco minutos, essa capacidade desmanchou no ar? Mais do que isso, o embate contra o lanterna do campeonato (Náutico, no domingo) e os jogos pela Copa do Brasil não seriam boas ocasiões para retomar esse entendimento?
Terá faltado a todos os envolvidos um pouco de visão? A pergunta se justifica, pois há vários pontos que parecem ignorados:
1 - as campanhas de Goiás, Atlético Paranaense, Vitória e Coritiba credenciam essas equipes a vencer confrontos contra qualquer dos grandes, não sendo vergonha, desonra ou absurdo uma derrota diante deles. Não é por acaso, aliás, que essas equipes ocupam posições entre os doze primeiros do campeonato, desalojando seus candidatos naturais (Vasco, São Paulo, Flamengo e Palmeiras);
2 - não falta vergonha ao elenco do Flamengo, mas qualidade; basta ver a escalação de ontem (Paulo Victor, Luiz Antonio, Wallace, González e João Paulo; Cáceres, Elias e Paulinho; Carlos Eduardo (Adryan - 19'/2ºT), Hernane (Marcelo Moreno) e Rafinha (Nixon), em que Elias é a única estrela.
3 - Mano provavelmente não é o técnico top que muitos pensaram pouco tempo atrás, mas também não é o responsável único pelo desempenho do Flamengo. Antes de sua chegada, por exemplo, o Flamengo havia sido derrotado pelo Náutico e pela Ponte Preta. Treinador, aliás, não dever ser o problema de um time que já teve Dorival e Mano nesta temporada.
O erro talvez tenha três pais: a diretoria por não compor um elenco razoável, Mano por acreditar que sua expertise bastava para dar jeito nas limitações do plantel, o elenco por não entender a visão de jogo de seu treinador.
Quanto à especulação de que Mano voltaria ao Parque São Jorge, é provável que seja apenas mais um boato para ocupar tempo das mesas esportivas. Será?

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