sábado, outubro 26, 2013

Peculiares e Problemáticos

Do último sábado para cá, quatro goleiros protagonizaram cenas que expõem a peculiaridade de sua condição e alguns problemas de nosso futebol.
O que há de peculiar na vida dos arqueiros é que a eles só é dado brilhar quando os outros falham. As defesas de Dida, Walter e Ceni na quarta são pequena mostra da condenação a que são impostos os guarda-redes: a de serem saudados como último recurso. Depois de falharem atacantes e defensores, é que surge o heroísmo do goleiro. Heroísmo, diga-se, momentâneo e precário, vigente até o próximo gol tomado.
Outras tantas vezes, o instante de júbilo surge imprevisível e sustenta a esperança da repetição. De qualquer forma, o goleiro nunca escapará ileso na primeira falha, ou no primeiro lance entendido como falha. Walter teve a oportunidade de ser esse herói improvável, a reputação a ser construída numa noite: em sua estreia como titular, defendeu duas penalidades e esteve próximo da grande consagração. Mas a glória estava guardada para um antigo conhecido da torcida de Walter: Dida, o impassível. Ao agarrar a cobrança de Pato, o arqueiro gremista ofuscou o debut do corinthiano.
Como prova da precariedade da glória dos camisas 1, a ênfase foi dada ao insucesso de Pato. No máximo, o que se ouviu foi "o cara queria fazer cavadinha no Dida?" Esqueceu-se, ao menos, uma outra pergunta: quantos outros goleiros esperariam a cobrança no meio do gol como fez o senhor Nelson de Jesus?
Mas Dida está acostumado e, a cada defesa, deixou a meta com sua já lendária calma, mostrando a sua peculiaridade.
Walter, por sua vez, pode entrar na galeria dos goleiros que saíram da reserva para a condição de ídolo. Se assim for, fará companhia a Ronaldo, Zetti, Marcos e Cássio, o titular machucado.
O problema mascarado pelas atuações de Dida e Walter é a completa ineficiência dos dois ataques mosqueteiros. Ineficiência reforçada pelas defesas das penalidades. Se Pato errou e Dida brilhou, é preciso lembrar que os ataques milionários - Kléber e Barcos, Pato e Romarinho - não disseram por que entraram em campo. Pato evidenciou a inaptidão ofensiva de que o Corinthians vem sofrendo; Dida relativizou a proposta defensiva do Grêmio.
Outro problema ocultado na quarta-feira foi a defesa são-paulina no jogo do Chile. A conta é simples: se Rogério brilhou com seis defesas e, mesmo assim, foi vazado três vezes, houve algo errado com o sistema defensivo da equipe de Muricy. Frise-se que a defesa tricolor tem tomado menos gols desde a chegada do técnico campeão, mas há vezes em que simplesmente apaga. Universidad Católica, Vitória e Santos são exemplos para a reflexão dos beques do Morumbi.
No começo, contudo, falávamos de quatro goleiros, peculiaridades e problemas. Já foram citados Dida e Walter e os respectivos ataques pouco produtivos. De outro lado, lembrou-se dos problemas defensivos do São Paulo, minimizados pela atuação de Rogério.
Falta o quarto goleiro e o maior problema.
Pouca gente falou, mas no final de semana em que os abraços do Bom Senso - movimento liderado pelos jogadores - ganharam os gramados do Campeonato Brasileiro, uma cena que simboliza muito dos problemas do futebol nacional aconteceu: Cássio se contunde e sai de campo amparado por integrantes da comissão técnica. Não havia maca ou carrinho num jogo do campeão do mundo no país da Copa?
O lamentável episódio quase não ganhou destaque, mas é propício para o exame de nossos peculiares problemas.

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