sábado, novembro 30, 2013

Dona Luísa, Antonio Prata e Júlio Baptista

Dona Luísa foi professora entre as décadas de 70 e 90.
Outro dia, conversando sobre leituras e educação, ela lançou uma observação interessante: E a fala dos jogadores de futebol? Melhorou muito!
De fato, basta escutar Alex, Paulo André, Rogério ou Juninho Pernambucano para perceber que o discurso dos futebolistas tomou melhor forma e maior conteúdo. Na forma, quase sempre está perto daquilo que a média dos instruídos produz, nos erros e nos acertos. No conteúdo, o discurso deixou de se preocupar apenas em descrever como foi o gol ou se houve ou não falta. Prova disso é a coesão e a coerência do Bom Senso Futebol Clube (BSFC), movimento dos jogadores que conta com nomes como Juan, Dida, Zé Roberto, Paulo César, além dos quatro citados no começo do parágrafo.
Uma das maiores provas do novo nível de reflexão dos atletas foi dada no começo da partida entre São Paulo e Flamengo, em Itu, no último dia 13. Ameaçados de punição pelo árbitro Alício Pena Júnior, caso adotassem a postura de braços cruzados, ídolos como Chicão, Leonardo Moura, Elias, Ganso, Rogério e Luís Fabiano encontraram uma saída inteligentíssima: tocaram a bola displicentemente, alheios ao jogo e ao apitador. (Veja aqui)
A melhora do discurso dos jogadores, contudo, não foi acompanhada por uma qualificação da audiência, que comunga, em quase sua totalidade, de dificuldade de compreensão.
Algumas vezes chamada de analfabetismo funcional, essa dificuldade não acomete apenas os desvalidos, mas se espalha em todos os estratos.
Um exemplo disso é a coluna publicada por Antonio Prata no jornal Folha de São Paulo do dia 03 de novembro último. (leia aqui)
Intitulada Guinada à Direita, trata-se de uma caricatura de argumentos sustentados por colunistas do mesmo jornal, mas com posicionamento diferente de Prata.
A recepção da coluna, entretanto, foi repleta de leituras equivocadas. Os leitores do jornal não perceberam o viés jocoso do texto e produziram uma efeito curioso: muitos aplaudiram a argumentação, outros tantos a repeliram. Coube a Prata esclarecer que estava sendo irônico em seu texto, o que acarretou até manifestações de descontentamento pelos leitores "enganados".
Ainda que a ironia por escrito possa enganar até o leitor mais versado, basta correr os olhos sobre o texto para perceber que, mais do que irônico, o escritor foi paródico. Não havia como entender sua "guinada" como verdadeira. Produziu-se, assim, um efeito insuspeitado: revelou-se o despreparo de boa parte da qualificada audiência do periódico paulista.
Lembrei do texto de Antonio Prata após ver as reações ao episódio envolvendo Júlio Baptista e Cris na partida entre Vasco e Cruzeiro. Irritado com as provocações do zagueiro cruz-maltino, Baptista respondeu: Faz outro logo! (veja aqui)
As ligações entre Cruzeiro e Vasco (Cris, Marlone, Fábio, Dedé) bastaram para que se apontasse possível combinação de resultados. Curiosamente, foram esquecidos outros fatos que também envolveram o confronto, como a ressaca cruzeirense, a necessidade vascaína, o protesto do BSFC. Mais importante do que isso, a própria postura do Cruzeiro em campo. Basta ver os números do jogo. (leia a coluna de Mauro Cezar Pereira aqui)
De uma frase de jogo, que pode significar muito coisa ou nada, surgiram conclusões que criminalizam os jogadores ou condenam a competição por pontos corridos. (leia o texto de Juca Kfouri aqui)
Mas crer que o Cruzeiro quis entregar um jogo em que seu ataque chutou 12 vezes no alvo e em que seu goleiro evitou tantos outros tentos do Vasco é uma falha tão grande de leitura quanto levar a sério o caricato argumento de Antonio Prata (Veja as cotas, por exemplo. Após anos dessa boquinha descolada pelos negros nas universidades, o que aconteceu? O branco encontra-se escanteado. Para todo lado que se olhe, da direção das empresas aos volantes dos SUVs, das mesas do Fasano à primeira classe dos aviões, o que encontramos? Negros ricos e despreparados caçoando da meritocracia que reinava por estes costados desde a chegada de Cabral.)
É ler o texto ignorando o contexto. Resta saber se a ignorância se dá por desconhecimento, incapacidade ou má-fé.
Em qualquer dos casos, é quase certo que Dona Luísa não vê nos leitores e comentaristas a melhora dos jogadores.

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