quarta-feira, julho 09, 2014

7 Variações sobre o número 4



Os jogadores

Leio no sítio do jornal Marca alguns textos relacionados a Di Stéfano. Num deles, leio a expressão cuatro grandes del fútbol. O autor a usa para se referir ao grupo composto por Di Stéfano, Pelé, Cruijff e Maradona. Cada um deles teria dominado uma década da história do esporte.
É interessante que cada um deles esteja ligado à melhor fase de uma equipe (Real Madrid, Santos, Ajax, Napoli). Além disso, brilharam por seus selecionados: Cruijff não jogou a Copa de 78, mas foi importantíssimo no vice-campeonato de 74, Pelé participou diretamente de dois títulos (em 62, contundiu-se no início) e Maradona levou a Argentina a duas finais.
Di Stéfano não ganhou a Copa - o que é uma pena para sua (da Copa) história-, mas marcou o futebol de três países. Na Argentina, atuou no mítico River Plate de Moreno e Labruna.
Pouco depois, com o êxodo dos jogadores argentinos enriqueceu o chamado El Dorado do futebol colombiano. Por fim, e na parte mais destacada de sua trajetória, foi protagonista na época áurea do Real Madrid.
Das imagens e relatos que nos sobraram, tem-se que a Flecha Loira era um atacante goleador. Porém, acima disso, era um jogador total avant la lettre, atuando por todo o campo, executando e pensando o jogo.
Dos quatro grandes, Di Stéfano é o primeiro a partir. E, assim, o primeiro a ficar.


As seleções

Partindo da análise dos jogadores, é possível a analogia para se chegar às quatro grandes seleções da história.
Uma boa tentativa de classificação foi feita pelo sítio da BBC. Da classificação obtida, tem-se que Brasil e Alemanha lideram com boa folga sobre Itália e Argentina. Os líderes participaram de treze finais (7 cada um, com a disputa de 2002 entre os 2) até agora e completarão 14 com a classificação alemã ontem.
Depois deles, Itália (com seis) e Argentina (com quatro) participaram de mais decisões.
São os quatro grandes. Poucos se metem entre eles e apenas ocasionalmente: França, Espanha, Holanda, Uruguai.

As Eras

Assim como na lista dos grandes jogadores não aparecem nomes como Labruna, Leônidas, Sindelar, Stábile e José Leandro Andrade, também o Uruguai não figura numa relação dos grandes do futebol moderno.
Ao que parece, o período que vai da primeira Copa ao Maracanazo representa uma espécie de Idade Média do futebol. Esse intervalo foi marcado por diferentes tipos de trevas: a segunda Guerra, a ausência de registros das partidas, o amadorismo. Anterior a ele, poderia ser delimitada a idade antiga do futebol, que terminaria em 1930 e levaria para os livros de história equipes como a Celeste Olímpica e jogadores como Friedenreich. Na sequência dessa era medieval, viria a modernidade.
As quatro seleções que encabeçam o ranking proposto pela BBC são as únicas que venceram mais de uma Copa depois da Segunda Grande Guerra.
O recorte na década 1950 parece apropriado, pois é nesse período que começam a se estruturar as competições continentais entre clubes e as transmissões televisivas. Além disso, é a partir de 1954 que o número de participantes nas Eliminatórias passa a aumentar; a relação candidato/vaga ultrapassa a proporção de 3 para 1 já em 1958.
É nessa época, por fim, que se consolidam as imagens dos maiores jogadores e equipes.
Delimitadas - com as imprecisões de todos os limites - as Idades Antiga, Média e Moderna do futebol, é preciso fixar um ponto para nossa contemporaneidade.
Em 2002, o escritor Jorge Caldeira publicou o livro Ronaldo: Glória e Drama no Futebol Globalizado em que trata do grande ídolo midiático da passagem do século XX para este. Não há dúvida de que a expressão futebol globalizado serve bem para definir o estágio em que nos encontramos.
Contudo, se o patamar atual é apenas o desenvolvimento do sistema de estrelato de outras épocas, e se a quantidade da informação é apenas consequência da velocidade adquirida por seus meios, há algo que diferencia o ambiente em que brilharam Di Stéfano, Pelé, Cruijff, Maradona. Ou, antes deles, Leônidas, Meazza, Sindelar, José Leandro Andrade. Ou, junto e ao redor deles, Puskas, Garrincha, Eusébio, Beckenbauer, Platini, Zico.
É bem possível que o elemento diferenciador seja a possibilidade de contato entre jogadores e culturas de todas as partes propiciada por fenômenos que marcaram o início dos anos 90: a reestruturação do Leste Europeu, a União Europeia, a prospecção de novos mercados (Copa nos Estados Unidos, por exemplo), a Lei Bosman.
Retratos deste período são o fortalecimento de ligas tradicionais (Espanha, Inglaterra, Alemanha), o enriquecimento súbito de campeonatos periféricos (Rússia, Ucrânia, Japão, Estados Unidos), as transferências milionárias e constantes, o fortalecimento de marcas individuais que carregam consigo valor a agregar aos clubes de destino(Ibrahimovic, Figo, Ronaldo, Pirlo, Zidane), polaridades em todos os níveis do jogo (Cristiano Ronaldo X Messi, Real Madrid x Barcelona, Nike x Adidas).
Na ordem contemporânea, o torcedor pode acompanhar uma liga, um time, um jogador, uma marca. E, é claro, não precisa acompanhar apenas uma categoria ou apenas um elemento de cada categoria.

Os eliminados nas quartas

Costa Rica, França, Colômbia e Bélgica entrarão para a história dessa Copa no escaninho das seleções que mostraram força e encanto mas não venceram.
A trajetória mais surpreendente é a da Costa Rica. Eliminada invicta, a equipe da América Central foi a sentença fatal para seus adversários do chamado Grupo da Morte. Venceu nos pênaltis uma campeã europeia e ainda fez a atual vice-campeã mundial correr 120 minutos para seguir.
A Bélgica era a maior candidata a zebra. Veio assim credenciada pelos analistas que viam na geração de Hazard um trunfo para repetir ou superar a de 1986. Se a decepção não foi tão grande quanto a expectativa, a satisfação também não foi alta. Favorecida por um grupo fácil, a equipe do técnico Wilmots venceu com dificuldade seus jogos da primeira fase e precisou da prorrogação para bater o goleiro dos Estados Unidos, Howard. Ressalte-se que houve nesse embate grandes méritos do arqueiro. Por fim, sucumbiu diante da Argentina numa partida em que não mostrou reação após o gol de Higuaín.
França e Colômbia, por sua vez, mostraram jogadores promissores e souberam se reestruturar após os desfalques de seus principais jogadores (Ribéry e Falcao).
Essas quatro equipes suscitarão maiores expectativas no próximo mundial. O que lhes reservarão os campos da Rússia?

As decepções

As quatros grandes frustrações desta Copa são aquelas em que a relação entre o prometido e o entregue são altamente deficitárias
.
A primeira decepção veio com quem se apresentava como candidato natural ao título: a campeã Espanha. O envelhecimento da geração de 2010 e a presença de rivais bem estruturados no grupo (Chile e Holanda) fizeram com que o caminho da Fúria fosse abreviado e o resultado fosse comparável ao fiasco de outros campeões como França (2002), Brasil (1966) e Itália (2010).
O segundo fiasco foi a Itália, vice-campeã europeia e penúltima campeã mundial. O último ato do grupo de 2006 foi melancólico. Ficará lembrada pelo jogo de Manaus, pela expulsão de Marchisio, pela inoperância do ataque e pela mordida levada por Chielini.
O terceiro posto fica com Portugal. Ninguém esperava que Cristiano Ronaldo levasse os lusos ao título, nem ele. A classificação para as oitavas parecia o óbvio, contudo. A absoluta dependência de CR7 se evidenciou na falta de criatividade da equipe portuguesa. Ao menos, saem com a desculpa de que a expulsão de Pepe foi crucial para a goleada sofrida na estreia contra a Alemanha.
Essa desculpa não tem a seleção brasileira, que toma o lugar de quarta decepção apenas no aspecto cronológico, pois a grandeza do vexame de ontem a credencia para o primeiro posto.
O título não era obrigação, uma vez que era fácil constatar a presença de rivais de primeiro nível (entre eles, os outros semifinalistas e a decepcionante Espanha). A semifinal era o objetivo mínimo; para essa projeção, os modelos eram as campanhas de Alemanha (2006) e Itália (1990), nas ocasiões em que sediaram o mundial, e as últimas participações do escrete nacional (queda nas quartas em 2006 e 2010).
A maiúscula goleada sofrida, entretanto, credencia o Mineirazo como a maior tragédia de nosso futebol e dá descanso a Barbosa.

Os técnicos

A seleção brasileira foi campeã com cinco técnicos diferentes. Há quem diga que foi campeã apesar deles, é válido ressaltar.
Desses cinco, quatro se aventuraram em outros mundiais. Todos fracassaram.
Feola assinou o vexame de 1966, Parreira sucumbiu com o peso e a ineficiência do ataque em 1996, Zagallo caiu diante de Cruijff e Zidane.
Scolari, por fim, colocou seu prestígio e sua história à prova. Uma aposta arriscada. Também perdeu.

Os motivos da queda

Um técnico campeão, um goleiro que figurou entre os melhores do mundo, laterais ofensivos, melhores zagueiros do mundo, Neymar.
Todos estes eram motivos suficientes para dar esperança ao torcedor. Mas por que o massacre, então?
Talvez o primeiro motivo seja a entressafra. Vivemos um momento de transição. A equação de nosso quadro geracional é soma de astros em fim de carreira que nem foram convocados(Kaká, Ronaldinho Gaúcho, Robinho), talentos envelhecidos (Daniel Alves), jovens promissores (Bernard, Oscar) e um craque em maturação (Neymar). Apenas como referência, a equipe de 2002 tinha dois jogadores já eleitos melhores do mundo e dois que o seriam no intervalo de cinco anos.
O segundo motivo é o entorno do time. Mais especificamente, a comissão técnica. A escolha por Felipão e Parreira denota a opção pela segurança (e pelo risco) do velho. A sedução da possibilidade de disputar o mundial em casa seduziu um campeão aposentado e outro relutante. Essa repetição de nomes se dá em todos os clubes do país e nas federações. Há a carência de novos nomes. Novidades que surjam e se imponham.
O terceiro motivo é o mais óbvio e, por isso, o mais difícil de enxergar. Os alemães são melhores do que nós. Há naquela seleção jogadores que disputam sua terceira Copa. Klose fez gol em quatro mundiais. A base da equipe é o Bayern de Munique, campeão com Heynckes e enriquecido pela filosofia de Guardiola.
Apesar de tudo isso, havia a possibilidade de vencermos ontem (um gol rápido, um apagão semelhante ao nosso, uma expulsão, outra escalação, uma atuação de gala). O futebol é a grande prova de que se pode fazer tudo certo e não obter o resultado esperado. Ou, mais parecido com o nosso caso, errar muito e alcançar o êxito. Diga-se, ainda, que inícios errados com bons frutos não são exclusividade nossa. Estão aí os títulos da Itália (1982 e 2006) e o vice da Argentina (1990) para comprovar.
Ou seja, o futebol é como a vida: êxitos e fracassos acontecem com erros e acertos. E apesar deles. Só isso. Só tudo isso.

Nenhum comentário: