domingo, agosto 30, 2015

Hornby e os lanternas

Em Febre de Bola, Nick Hornby construiu uma das histórias mais interessantes sobre o futebol.
O recurso usado pelo escritor inglês foi o de sincronizar duas narrativas paralelas: a de um torcedor e a de seu time. Há praticamente uma relação de causa e efeito - ou de dependência, se preferirem - entre a vida do narrador e a história do Arsenal: quando um vai bem, o outro segue; quando um está mal, os dois estão.
Febre de Bola é a execução literária de velho chavões como a arte imita a vida ou quando a fase é ruim, a bola não entra ou no futebol, como na vida. É um texto dinâmico e divertido. Hornby optou por uma sincronia nas fases da vida do torcedor e do Arsenal, como se ambos tivessem nascidos sob o mesmo signo. Há, é certo, outras formas para essa relação se exprimir: a fase boa do time conforta a pessoa num momento difícil, o momento bom da vida faz o torcedor ignorar a escassez de êxitos de seu time e, a mais frequente, ambos vivem temporadas medíocres, sem grandes ápices ou abismos.
Lembrei do livro de Hornby ao acompanhar os jogos de ontem. Coincidentemente, os lanternas das principais divisões brasileiras jogaram ontem: Vasco, Ceará e Mogi-Mirim. É de se esperar que nenhum torcedor viva um período semelhante ao atualmente suportado por esses times.
Comecemos pelo Sapão.
Jogando em casa, contra um Bahia repleto de figuras conhecidas (Kieza, Thiago Real, Max Bianccuchi), o Mogi jogou sem Rivaldo e Rivaldinho (um aposentado, outro transferido). Em partida movimentada, o time da casa pressionou o Bahia e viu Mateus Ortigoza abrir o placar aos 15 da etapa final.
Ortigoza seria o herói da partida, não fossem as três oportunidades que teve e não converteu. Elas pesaram mais quando Kieza empatou. Era noite de sábado e boa parte dos 680 pagantes saiu descontente do Romildão: o Mogi-Mirim está na vice-lanterna.
O Sapão trocou de posição com o Ceará. Num jogo em que houve duas viradas, gol de goleiro e substituição de árbitro, o Ceará perdeu por 3 a 2 e agora é o último colocado.
Não há como negar, entretanto, que a jornada que teve contornos mais dramáticos foi a do Vasco da Gama.
A manchete do sítio Trivela resume bem: Mesmo vendo, não deu para acreditar que o Vasco perdeu com um gol no último lance.
Todas as chances do Vasco esbarraram no goleiro do Figueirense. Muralha, o nome dele. O golpe, contudo, sempre pode ser mais doído. E quando um ponto pelo empate era a conta com que o torcedor se conformava, Marcão repetiu o que fizera pela Copa do Brasil contra o Atlético Mineiro: um gol seu nos últimos segundos derrubou mais um grande do futebol brasileiro.
É principalmente pelo tamanho e tradição do Vasco que sua fase amarga causa ainda mais espanto: em 21 jogos, treze pontos e oito gols. O Vasco segue sendo o Gigante da Colina; muito maior, sem dúvida, é sua dificuldade. Superará? Ou o descenso quase certo será agravado por um ano de 2016 ainda pior? É coisa que o futuro dirá.
A sabedoria popular diz que tudo é questão de fases.
Hornby sabe bem disso





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