domingo, março 27, 2016

Cruyff, Scott-Heron, Revoluções

Um exercício que gosto de praticar em meus momentos de ócio é o de comparar trajetórias. Gosto de pegar duas personagens (ou duas personalidades) e confrontar similitudes e divergências em seus caminhos, suas encruzilhadas, seus legados.
Por vezes, essa brincadeira toma dois exemplares parecidíssimos e acrescenta apenas mais um exame a muitos já realizados. Por exemplo: Bob Dylan e Belchior, Woody Allen e Domingos de Oliveira, Riquelme e Rivaldo.
Noutras tantas ocasiões, são colocadas lado a lado as histórias de gente de áreas e/ou épocas diferentes. Nisso, surgem algumas aproximações pouco frequentes. Exemplos são os pareamentos entre ídolos do esporte e da música (Paulinho da Viola e Ademir, Denner e Tom Jobim), figuras mitológicas e cânones modernos (Futebolístico, Musical) ou entre profissões (escritores e esportistas).
Nos meus devaneios, já elaborei muitos textos que nunca escrevi. É possível que nunca vejam o papel as linhas que imaginei unindo Gonzaguinha e Sócrates, Noel Rosa e Tostão, os reis Roberto e Pelé.
Cruyff sempre se mostrou uma figura arredia à aproximação. Sua figura de êxito em diversas funções no futebol prejudicam a tentativa de pareá-lo com Guardiola e Telê (pois foi um jogador muito maior do que eles) ou com Zico e Platini (por ter sido um treinador muito mais impactante na história do futebol). É possível que alguém proponha as similitudes com Beckenbauer, mas me parece um pouco despropositado realizar um cotejo entre Der Kaiser e El Flaco.
De repente, contudo, o acaso tratou de providenciar um paralelo. Enquanto eu lia alguns dos muitos textos tratando da trajetória do camisa 14, começou a tocar no computador The Revolution Will Not Be Televised.
Não era a primeira vez que eu ouvia o poema de Gil Scott-Heron, tampouco a minha estreia em leituras sobre Cruyff. Era, com certeza, a primeira vez que fazia as duas coisas ao mesmo tempo. E, então, as intersecções pareceram óbvias.
A começar pelo título, pois não são poucos os que creditam a Cruyff o protagonismo num dos momentos mais importantes da história do futebol: o surgimento da Laranja Mecânica. A sua contribuição para o esporte é descrita como a grande revolução do futebol.
Curiosamente, essa revolução não foi acompanhada pelos fãs do futebol. Não neste lado do Atlântico, pelo menos. Zagallo, por exemplo, pagou por sua soberba. Também Pedro Rocha se espantou. Zico, por sua vez, foi informado por seu irmão, que morava em Portugal, e alimentou grande expectativa.
Cabem aqui duas breves digressões.
O epíteto Laranja Mecânica é, como todos sabem, devido ao sucesso do livro de Anthony Burgess, que originou o filme homônimo de Stanley Kubrick. Curiosamente, a palavra orange do título (A Clockwork Orange) carrega uma ambiguidade: se por um lado, faz referência direta à cor e à fruta, no livro carrega o sentido de homem, pessoa. Isso pode ser comprovado no glossário da gíria utilizada pelas personagens. Dessa forma, a laranja mecânica é o homem mecanizado. No ideário de Rinus Michels, entretanto, o que se procurava era justamente o contrário: jogadores inventivos e um futebol dinâmico e envolvente. Revolucionário, em resumo.
E, assim, abre-se outro parêntese, referente ao(s) significado(s) de revolução. Abordando o tema da revolta, a filósofa Julia Kristeva anota que dois deslocamentos semânticos marcam a evolução da palavra: um relacionado com a ideia de movimento, outro com a de tempo e espaço. No que diz respeito ao primeiro sentido, ela explica que o verbo latino volvere produz derivados com significado de curva, retorno, repetição, circunvolução, ou ação de cobrir e envolver. Ela ainda ressalta que hoje dificilmente atentamos para as ligações entre revolução e hélice, ou entre rebelar-se (se révolter) e remexer-se (se vautrer). Quanto à segunda acepção, Kristeva observa que o verbo revolvere propicia significados ligados ao campo intelectual (consultar, reler, contar) e que a palavra révolution aparece no francês no vocabulário específico da astronomia, desenvolvendo ao longo da história o sentido de mudança.
É possível, portanto, dizer que, em ínumeros sentidos, Cruyff participou de um movimento - e de um momento - revolucionário do futebol.
Fechado o parêntese, podemos voltar à aproximação de Gil Scott-Heron e Cruyff.
O poema The revolution will not be televised foi gravado pela primeira vez em 1970 no disco Small Talk at 125th and Lenox. Foi regravado para o álbum Pieces of a man, em 1971, e, por fim, deu nome a uma coletânea de 1974. A coincidência de datas é expressiva, pois foi neste intervalo de quatro anos que Cruyff se consagrou definitivamente como jogador (três vezes vencedor da Bola de Ouro e estrela da seleção holandesa na Copa da Alemanha).
Outro fato interessante é que as revoluções sem registro de Cruyff e Scott-Heron ocultam a história que possibilitou o surgimento de seus sucessores amplamente divulgados (o rap, o tiki-taka, o Dream Team, o acid jazz. Isso faz, ainda, com que a pesquisa sobre a história desses dois expoentes jogue luz sobre seus mais importantes predecessores (Langston Hughes, Miles Davis, Puskas, Michels ) e coetâneos (Brian Jackson, Neeskens).
Importantíssimo ponto de contato entre as duas trajetórias é encontrado no fato de ambos terem sido polivalentes em suas áreas. O futebol total foi praticado por Cruyff em diferentes papéis (jogador, treinador, dirigente, crítico); Scott-Heron desenvolveu sua arte como poeta, romancista, músico e compositor, e, além disso, desenvolveu estudos sobre o blues (ele se definia como bluesologist).
Entre os acasos da história, descobre-se que Scott-Heron era filho de um jogador de futebol. Seu pai, Gil Heron, chegou a jogar no Celtic (Escócia), tendo começado e encerrado a carreira no Detroit Corinthians. Cruyff, por sua vez, teve passagem pelo Los Angeles Aztecs e pelo Washington Diplomats.
Por fim, uma coincidência intrigante: o selo pelo qual Scott-Heron gravou seus primeiros discos se chama Flying Dutchman. Um dos apelidos de Cruyff era Holandês Voador.
Em seus retornos, curvas e voltas, a história vai redimensionando o tempo e o lugar das obras do Padrinho do Rap e do Filósofo do Gol.




Um comentário:

Sidarta disse...

Música é mais formal. Mas Cruyff quis o gol. Já Gil foi além da bola na rede.