domingo, julho 16, 2017

A primeira data




Certa vez, ouvi uma sugestão interessante: os nomes de ruas poderiam ser as datas de importantes jogos de futebol. Com isso, as vias públicas recordariam uma história pela qual o brasileiro se interessa mais do que pela dos velhos patriarcas que as nomeiam atualmente.
Cada torcedor de futebol tem suas datas e, com pouco esforço, dezenas delas poderiam ocupar as placas. Quando uma criança perguntasse aos pais que dia fora aquele, estaria dada a oportunidade para a narração da história de nossos melhores feitos futebolísticos. Haveria ainda o caráter didático de perceber que o êxito pode correr paralelo ao fracasso e que a alegria de uma equipe pode se encontrar com a de um rival.
Um dos problemas talvez fosse o de padronização. Seria melhor escrever o mês por extenso ou em algarismos? Nessa segunda opção, os endereços se tornariam um grande deleite para os apaixonados por números. Basta imaginar que um morador da rua em homenagem à Libertadores corinthiana preencheria seus envelopes com a inscrição "Rua 04/07/2012, 1910/77".
As empresas do setor imobiliário fariam projetos adequados ao da história da rua. Palmeirenses procurariam a rua 12/06/93; são-paulinos preferiram a 17/06/1992; e a 15/12/2002 seria um sucesso entre santistas.
Aliás alguns meses, como julho e dezembro, seriam pródigos em aparições no catálogo postal.
Nas últimas semanas, por exemplo, houve referências ao 08/07/2014 e ao 05/07/1982. Amanhã alguns lembrarão do 17/07/1994, mas pouca gente se recordou do 12/07/1998. Tudo em razão de as Copas do Mundo serem disputadas no intervalo entre as temporadas europeias.
A primeira vez que vi uma data futebolística ser recordada foi em 16/07/1989. Na transição entre a geração de 1982 e a de 1994, a seleção brasileira enfrentaria a uruguaia pela final da Copa América. Calhou de o domingo, dia reservado para as finais, ter caído em 16 de julho, aniversário da data mais lembrada do futebol brasileiro (pelo menos, até ali): o Maracanazo.
Para aumentar o clima nostálico, o adversário e o estádio eram os mesmos da fatídica final de 1950.
Naquele dia, um Romário tão magro quanto hoje mostrava ótimo posicionamento e boa impulsão. Com um gol de cabeça, o Baixinho ajudou a romper uma fila que durava quarenta anos na competição continental e a quebrar um pouco do silêncio que vinha desde o gol de Ghiggia.
Imagino uma cidade em que baste virar a esquina para sair de 16/07/1950 e chegar em 16/07/1989.

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