terça-feira, julho 04, 2017

União de opostos em torno de Ceni



Ligo meu computador e uma notificação na rede social chama a atenção: "Fulano, Sicrano e Beltrano têm interesse em um evento".
Nestes tempos de convivência difícil entre os diferentes, a escalação desses três nomes num mesmo lugar me causa certo espanto. Para usar os insultos correntes nestes dias malcriados, os três interessados são um corinthiano coxinha, um palmeirense petralha e um santista isentão. Antes de descobrir o famigerado evento, gastei alguns segundos imaginando qual artista, filme ou passeata poderia reunir perfis tão inconciliáveis.
A dúvida se desfaz: a mescla se deu em torno da demissão de Rogério Ceni, o evento era mais um dos acontecimentos fictícios a justificar a criação de uma página para zombar da notícia de ontem.
Erro atrás de erro, o São Paulo se apequena e municia os adversários. O primeiro equívoco foi a contratação de Ceni como técnico; o último, sua demissão. Este último pode ser agravado pela qualidade da reposição. Quais as opções: Dorival, Mano? Será inteligente substituir Rogério por um treinador fortemente identificado com um rival?
Os melhores nomes não estão disponíveis. E quem apostou em nomes novos tem colhido bons resultados: Corinthians, Flamengo, Botafogo.
Olhando apenas para o trabalho no banco, Rogério não passa menos confiança do que Ricardo Gomes, seu antecessor, por exemplo.
São-paulino de uma geração anterior a Rogério Ceni (sim, havia São Paulo antes dele), não o colocaria como titular num melhor Tricolor da história. Dez anos atrás, escalei neste blog Zetti num time dos melhores que vi jogar. Ainda hoje mantenho essa escolha. Com ressalvas, no entanto. As ressalvas se devem ao fato de que o São Paulo perdeu a chance de ter em sua meta um dos melhores goleiros do mundo: Rojas. Contratado como o destaque da Copa América em 1987, ele ficou na reserva de Gilmar e provavelmente assumiria o gol na saída deste para o Flamengo, mas aconteceu o que todos sabem.
Entre os arqueiros mais antigos, há ainda figuras históricas: King, Pedrosa, Poy, Sérgio Valentin, Waldir.
Poy foi técnico; Pedrosa, dirigente; Sérgio e Waldir treinaram outras equipes.
Entre as objeções à contratação de Rogério como técnico, estava a de que seu perfil seria mais adequado ao de um dirigente. É provável que sim. No entanto, sua presença no banco de reservas servia a outros dois propósitos urgentes da diretoria: marketing e proteção.
Outra objeção era de que ele deveria ter começado como assistente técnico ou treinador das divisões inferiores. Diante do carinho da torcida para com o agora ex-treinador, não parece a melhor opção. Principalmente quando se leva em conta os últimos cinco anos sem títulos. Bastaria uma pequena sequência de insucessos para que as arquibancadas gritassem seu nome e trouxessem desconforto ao treinador do momento. Todos se lembram que quando Rojas (sim, o mesmo) foi treinador e conseguiu a classificação para a Libertadores (que nos dez anos anteriores escapou de gente como Parreira e Carpegianni), caiu nas graças da torcida. Mesmo com Cuca no banco na temporada seguinte, os tricolores o saudavam e Cuca o tirou de lá.
Começar uma nova função pelo topo pode dar certo (Beckenbauer) ou não (Falcão). O intervalo entre deixar o campo e trabalhar na lateral também diz pouco. Houve até gente que desempenhou com sucesso os dois papéis ao mesmo tempo (Dalglish, Pedernera, Weah).
Restando a opção de torcedor, Rogério não se conteve e preferiu aceitar o desafio. O trabalho desenvolvido até domingo, dentro das limitações impostas, não foi diferente do que outros nomes conseguiriam. Quem diz não é este digitador, mas gente bem mais versada no futebol. Lembre dois depoimentos:

O problema do São Paulo hoje é o São Paulo. Se não houvesse crise política, Leco talvez não precisasse de um nome de peso que servisse de escudo e não contratasse Rogério Ceni tão cedo. Tomaria decisões com mais calma e mais chance de acerto.

Mesmo assim, é cedo para dizer que Rogério foi um erro. Ele será um excelente técnico e hoje sofre por questões alheias ao seu trabalho.
(PVC, Folha de São Paulo, 03/07/17)

Se o São Paulo fosse dirigido, na situação atual e com os mesmos jogadores, por qualquer outro técnico competente, provavelmente, não daria certo. Isso não diminui os erros de Rogério Ceni. (Tostão)

Em resumo, não era fantástico, mas estava tão ruim quanto estaria com outro treinador qualquer. Com a diferença de que Rogério Ceni não é outro qualquer na história recente de sua equipe. Se Mito é definitivamente um exagero, é também certo que, nos últimos trinta anos, apenas Raí teria tanto poder de atrair e unir o torcedor.
Quem ganha com sua demissão são os torcedores adversários e a fábrica de memes. Se é evidente desproporção a idolatria que os torcedores mais jovens têm em relação ao treinador demitido, para eles Rogério é quase do tamanho do São Paulo. Para os torcedores rivais, é até maior. Com as devidas diferenças, é quase um Cristiano Ronaldo destas terras: os detratores não reconhecem seus méritos, os adoradores ignoram seus defeitos. E muitos torcem por seu insucesso, pois não gostariam que tivesse êxito. Nas arquibancadas binárias, a maior torcida é a contra Rogério: composta de palmeirenses, santistas e corinthianos; coxinhas, petralhas e isentões. E o regozijo pelo seu fracasso os une. Enquanto isso, os dirigentes permanecem. E os memes, é claro.

Um comentário:

Sidarta disse...

Dunga é a solução