segunda-feira, abril 21, 2008

A macaca

Outro dia fui tomar uma com meu amigo e colaborador máster deste blog, Sidarta Martins, no tradicional boteco Beach Beer, lá na Alameda Santos, perto de meu trabalho e de seu local de estudo. Bater papo com ele é algo, no mínimo, interessante, pois temos muita coisa em comum, vide o Na Cal e a nossa paixão pelo futebol. Conversa vai, conversa vem, comentamos o quão fascinante é ler sobre coisas que, sem o advento da internet, dificilmente teríamos a oportunidade em conhecer, devido ao fato de diversos assuntos não poderem circular na grande impressa (interesse, espaço, quadro profissional, cobertura, são algumas das razões lembradas por mim agora). Os blogs, com certeza, tiveram um papel muito importante em divulgar notícias, acontecimentos e histórias que fazem parte do cotidiano presente no cidadão comum, estas pelas quais pouca gente tem a chance de conhecer, mas que têm muito valor. No futebol, informações sobre pequenos clubes, tais como XV de Jaú, nem tão pequeno assim, e Agüinha, este minúsculo, são divulgadas a cada minuto por torcedores, residentes, torcedores/residentes de esquadras e/ou cidades desconhecidas pela grande maioria. A televisão, que abrange 98% dos lares nacionais, acaba, em virtude de interesses financeiros, somente registrando notícias com alto alcance e baixa complexidade, como o inesgotável caso da menina Isabella, exposto em todos os canais, a todo momento.

Porém, nesse último final de semana, a situação acabou se invertendo. A televisão me proporcionou um momento que me fez lembrar os tempos que morava em Jaú e costuma freqüentar o estádio Zezinho Magalhães. O tempo no qual o estádio comportava 15 mil pessoas, o pipoqueiro era conhecido por todos e ninguém tinha medo de degustar o churros feito com óleo de sabe-se lá quanto tempo. O tempo no qual eu morava em uma cidade do interior.

Sábado acordei por volta do meio-dia. Estava em Campinas, uma cidade nem tão pequena assim, mas do interior, para celebrar a formatura de um grande amigo. Cheguei lá um dia antes, afinal, um evento desse porte merece uma prévia, que acabou acontecendo no dia anterior. A preguiça e dor de cabeça acabaram fazendo com que eu saísse do hotel somente lá pelas três da tarde. Decidi caminhar pelo município e em poucos metros circulando pela Av. Francisco Glicério pude notar que todos viviam um clima de decisão. Lembrei que a macaca iria decidir sua passagem à final contra o Guará logo mais, às 18h e um boteco teria de servir como meio para assistir a transmissão. Questionei alguns moradores sobre estabelecimentos que costumam abrigar os ponte-pretanos e um a meia quadra do Sonotel (também concordo com a infeliz escolha do nome) era um dos principais. Após o servido almoço de picanha, batata-frita, arroz, salada e uma deliciosa entrada, com destaque à berinjela, sentei-me acompanhado da namorada, amigos e tensos torcedores, a fim de assistir o grande confronto. Confesso que no início o jogo não despertou tanta atenção. A saudade do Bartazá e a Brahma bem gelada, fizeram com o que estava sendo exibido na tela ficasse em segundo plano. Somente com alguns gritos (agudos em sua maioria, apesar da presença de apenas três mulheres no local), eu destinava meu olhar para o lado direito, aonde se localizava o aparelho. O gol do time do Vale do Paraíba e os rostos decepcionados dos torcedores me fizeram lembrar o sentimento que sentia nos jogos do Galo, quando o agora vai, nunca ia. Entretanto, a situação mudou. Com o empate da Ponte, a tristeza deu lugar à expectativa e o papo para o foco no jogo. O que acontecia na mesa, não mais me importava. Pessoas se levantaram dela, os assuntos variavam e eu, agora, só me interessava pela partida. As defesas de Aranha, a expulsão de Eduardo Arroz e o gol do suplente que acabara de entrar, fizeram com que a paixão pelo alvinegro ganhasse uma linha diagonal, ao invés das verticais. Quando dei por mim, já estava gritando Ponte como se fosse um verdadeiro torcedor, dando tanta importância ao jogo quanto o motorista do ônibus que literalmente criou uma parada em frente ao bar, estacionando a condução de diversos outros sofredores para acompanhar os minutos finais, e me fingindo de surdo no momento em que alguém proclamava meu nome.

Com o apito final e os braços abaixados depois de comemorar, pude finalmente trocar o resto de idéia que ainda era elaborada pelo pessoal da mesa, agora se numerando em três. A saideira acompanhou as histórias de como anda a vida do Bartazá, seja no âmbito profissional ou pessoal. Infelizmente, a conversa acabou não tendo o devido tempo e atenção que a ela era necessário. Mas o sentimento em ver um time razoavelmente sem expressão - afinal, a Ponte não tem nenhum título importante nos mais de seus cem anos de história - me fez acreditar que um dia, com algum investimento, eu possa ver o meu XV de Jaú disputando a final de um campeonato e aqueles torcedores, que tanto choraram, cantaram e se sentiram verdadeiros campeões, possam estar junto comigo em algum boteco de Jaú gritando "Galo, galo! É campeão, é campeão!".


Peça de mortadela exposta no bar