terça-feira, outubro 17, 2006

Futebol fora da lei

Hoje, dando uma olhada no sítio da BBC, achei a notícia Uefa fears for international game (a Associação Européia de Futebol teme pelos amistosos internacionais). Trata de uma disputa de poder entre os grande clubes europeus e a FIFA, UEFA e as CBFs que está sendo travada no Tribunal de Justiça das Comunidades Europeias. Haverá repercussões por todos os cantos da Terra.


O caso é simples: o marroquino Abdel Majid Oulmers foi convocado para a Seleção em 2004 e se machucou no jogo; a equipe belga Royal Charleroi Sporting Club, time do Oulmers, não ficou feliz com a obrigação de ter de pagar os salários do chinelinho; o G 14, sindicato dos grandes clubes europeus, apoiou o time belga em uma ação de indenização na justiça.

A FIFA não gosta de quem usa a justiça, aqui no Brasil, por exemplo, sempre tem clube que reclama mas não tem coragem de ir perguntar pro juiz quem tem razão. É muito mais lógico para o Blatter não se submeter ao que pensam os juízes desse mundão a fora. Fica tudo mais fácil para fazer Copas, Amistosos, Transferências... É claro que, aqui e ali, há muitos abusos, jogadores sem direito aos 30 dias de férias é recorrente no Brasil.

Bem, voltando à contenda, o Real Madrid, Manchester e cia., para não sofrerem retaliçãoes da FIFA, apoiam o time belga. O pessoal pró Fifa fala que só as federações da Alemanha, França, Inglaterra, Itália e Espanha terão dinheiro para pagar os salários dos jogadores convocados. Nem a CBF teria com pagar os salários dos Rolnaldos (seria interessante não ter esses caras, só por experiência, pelo menos).

Um resultado a favor dos times que tem jogadores selecionados obrigaria as federações nacionais a pagar os salários do jogadores durante as convocações e indenizar os prejuízos gerados por contusões sofridas pelos convocados durante o período destas. A demanda está descrita em português, de forma bem simples e curtinha, no sítio do Tribunal.

Decidir-se-á se uma Seleção é igual a um time que recebe, por exemplo, um jogador por empréstimo ou se é algo maior aos clubes. O que é mais importante: o time do seu coração ou a seleção de seu país. Quem controla quem? O sonho do G 14 é fazer uma liga com só com os grandes europeus sem os pitacos do sistema FIFA. O Dentuço teria fãs ao redor de todo o Mundo, algo que já acontece.

Outro reflexo é sobre até onde os negócios podem controlar a emoção dos torcedores. O modelo americano, onde há um dono do clube, e o das associações desportivas sem fins lucrativos. Eu, particularmente, não vou torcer para um Chicago Bulls do futebol. Eu sei que os cartolas ganham muito, mas se ficar no papel já é demais para mim. Quando virar uma estrutura puramente empresarial, não vai ter jeito de ser torcedor.

É claro que o cara que se machucou não pode ser esquecido. Já há algumas ações no sentido de se securitizar os craques. Mas não dá prá falar que uma lesão sofrida em amistoso seja de responsabilidade exclusiva da federação nacional. Jogador que não se machuca não existe. Se as bombas ficarem não ficarem na conta dos times, o Eto'o nunca mais jogará pelo time de seu país. Futebol não é cinema, não é engenharia, há muitos simbolismos, representações, identidades coletivas envolvidas para que fique tudo regido por regras como as que cuidam de uma batida de carro.

Abraços,