quarta-feira, dezembro 13, 2006

Cartilha do Torcedor - Capítulo 0

O leitor do Na Cal teve contato, até agora, com nossas opiniões, com alguma informação e com muita abobrinha. Como estamos numa entressafra futebolística na intesecção dos Hemisférios Sul e Ocidental, a idéia é divulgar os direitos que Vossas Excelências, que nos lêem, têm presentes no Estatuto do Torcedor.

Antes de entrar na lei propriamente dita, têm alguns pre-requisitos que ajudam muito ao torcedor que quiser fazer valer seus direitos. Pois, uma coisa é ter algo escrito ou falado; outra bem diferente, é ver o prometido acontecendo na prática, de fato.

Quem não fala ou não ouviu falar que os políticos só prometem e não cumprem? Essa realidade existe porque o outro lado, nós, os cidadãos brasileiros, também contribui. Mais ou menos como a mulher de malandro que só sabe reclamar de algum Vadinho para a amiga, mas não tem coragem de largar do folgado.

Como não há uma Ditadura aqui no Brasil, é preciso aproveitar o período democrático, quando ninguém é morto por ser oposição ao governo de forma escancarada e oficial, para dar uma guaribada no País. Afinal, não dá pra assegurar que amanhã tudo vai ficar melhor só por sorte. Agora dá pra reclamar algumas coisas numa boa. Não precisamos fazer uma Comuna de Paris, mas o cidadão brasileiro não pode ser tão acomodado. Se ficarmos, como ficamos até agora, deitados em berço espléndido, nada de mais interessante irá acontecer. Quem tem menos de 30 ou 40, não pode correr o risco de levar um neto ao estádio daqui algumas décadas e ver tudo continua na mesma. Se isso acontecer, teremos de assumir nossa parcela de culpa.

A primeira sugestão para quem quer as coisas de acordo com a lei, justas, é ler o próprio Estatuto dos Esportes. Mesmo que você não entenda nada do jurdiquês, não tenha medo. Pelo menos, lendo, saberá o que não sabe e o sabe. Assim, algumas coisas você vai poder falar com certeza que estão corretas ou erradas. Que ninguém nos ouça: o juridiquês não é uma língua de outro planeta não! Muitas vezes, é só um jeito complicado de falar algo que todo mundo entende. Desta forma, tem-se a impressão que os juristas são mais necessários do que realmente seriam. Além do mais, acompanhando os capítulos da cartilha, tudo do Estatutoficará em linguajar acessível (espero!).

Segundo, o que é certo, justo, legal e correto na sua opinião pode não ser na opinião de quem tem força que você. Assim, deixe para argumentar, debater, divergir e dialogar com alguma autoridade quando houver espaço para civilidade. No meio de um quebra-pau, não tem jeito, o melhor é sair de fininho sem arrumar confusão com ninguém.

Veja o lado dos policiais que estão fazendo a segurança de um jogo de futebol! Já pensou que eles também têm família e não querem ser massacrados?

Se acontecer de você ser, de alguma forma, destratado por algum policial, procure testemunhas, lembre bem da situação, guarde o nome e o posto dele; e, depois, vá a uma delegacia ou, aqui no Estado de S. Paulo, à Corregedoria. Senão der certo, pode ir também à Ouvidoria da Polícia. É tudo gratuito e só custa seu tempo.

Vale dar uma ligada para rádios, tevês e jornais. As vezes, eles publicam as nossas reclamações.

Mas, se por fim, só restou ir reclamar ao juiz, não se esqueça de guardar tudo que possa servir de prova ao seu favor, óbvio. Como quem julga nunca pode estar envolvido com o fato a ser julgado, quanto melhores forem as provas suas apresentadas à Excelência que decidirá, melhor pra você será.

Em termos práticos, guarde o ingresso do jogo que você foi, por exemplo, ele é um documento importante. Pois, imaginem-se no papel de juiz que está diante de uma pessoa desconhecida que reclama todas as pitangas do mundo mas só há a palavra dela como prova. Os manos tem de se ligarem para não darem um furo desses.

Se você se meter em um rolo, quando chegar em casa, escreva toda a história num papel. Pois, caso tenha mesmo que levar a um juiz, a hora de contar a história a ele será, certamente, depois de vários meses e ninguém se lembra direito na hora certa. A Justiça brasileira é lentíssima.

Como já disse antes, as testemunhas são importantes. Pegue o telefone do maior número de pessoas possíveis, dentre as que presenciaram a roubada hipotética que você se meteu ou viu. Mantenha algum contato com elas até que o juiz às ouça. Algo bem leve, só uma breve ligação respeitosa a cada dois ou três meses para se lembrem de você e do que aconteceu. Afinal, ninguém gosta de ser pego de surpresa.

Por fim, Juiz, Delegado, Promotor de Justiça e Policial Militar são todos partes do Estado. Todos estão ai para fazerem as leis serem cumpridas. Mas não pode confundir um com o outro, não são a mesma coisa. Claro que todos são, no mínimo, Senhor, Ilustríssimo ou Excelência, por favor. Na dúvida, é tudo Excelência mesmo, não tenha medo. Para quem, por ventura, não saiba, o juiz é quem decide se alguém fica preso ou não, se algo está ou não errado. Os outros só fazem é levar os que eles acham que são criminosos ou violadores da lei para que o juiz decida quem, realmente, vai ou não em cana.

Abraços,