quarta-feira, junho 27, 2007

A torcida parou de cantar

O texto que se segue, não é de minha autoria. Achei entre os velhos arquivos. Guardei pq é muito bom, e muito bem escrito por Kléber Masiero, jauense radicado em SP, diretor do filme sobre os 80 anos do glorioso XV de Jaú. QQ dia, podemos tomar uma cerveja vendo esta pérola. Kléber escreve semanalmente no diário jauense "Comércio do Jahu", sobre as glórias do Galo da Comarca. Algo inimaginável pro tal do Agüinha...

O Brasil acordou ao primeiro sol de 1985 refeito da ressaca da derrota da campanha "Diretas-Já", mas esperançoso pela eleição - ainda que indireta - de um civil para a presidência da República. Não sabia, contudo, que no dia 21 de abril, enquanto poucos se lembrariam da morte de Tiradentes, muitos assistiriam à notícia da morte do presidente eleito Tancredo Neves. O civil que carregava a esperança dos brasileiros morria sem nem sequer ter tomado posse. A esperança levou um forte golpe. O ano seguiu.

Pouco afeito à política nacional, um palmeirense fanático acompanhou detidamente a caminhada de seu time ao longo do Campeonato Paulista daquele ano. Já havia nove anos da última conquista. O jejum não podia chegar a uma década!

No primeiro turno, vencido pela Portuguesa de Desportos, o time não foi bem. Décimo segundo colocado, atrás de times como América, Ferroviária, XV de Jaú. A esperança de classificação para o quadrangular final ficava restrita. Vencer o segundo turno ou ficar com uma das duas vagas que cabiam aos times com o maior número de pontos ganhos ao longo dos dois turnos.

O time do São Paulo venceu o segundo turno com uma rodada de antecedência. O Guarani fez a melhor campanha e também se classificou. Restava a Corinthians, Ferroviária e Palmeiras disputar a última vaga para o quadrangular na última rodada, no dia 24 de novembro, um domingo. O Corinthians jogaria contra o Comercial - ameaçado pelo rebaixamento -, em Ribeirão Preto, pela manhã. A Ferroviária enfrentaria a Portuguesa, no Canindé. E o Palmeiras receberia o XV de Jaú, no Parque Antártica.

Na noite da sexta-feira anterior ao jogo, o palmeirense fanático caiu de cama. Febre alta. Não havia a vacina contra a gripe!

O domingo de decisão amanheceu chuvoso. O palmeirense fanático - recostado aos travesseiros - assistiu, ao lado do filho, pela televisão, à derrota do Corinthians para o Comercial, por 1 a 0. A tarde parecia promissora. A Portuguesa venceu a Ferroviária por 3 a 1. Assim, bastava uma vitória sobre o XV de Jaú.

- Como é esse time do XV de Jaú?

- É mais-ou-menos. Ficou em sétimo no primeiro turno. Caiu um pouco no segundo. Está em décimo sexto. Somando tudo, vai terminar em décimo primeiro...

- Que é isso? Um time que tem Leão no gol, Paulo Roberto na lateral esquerda, Gerson Caçapa e Edu Manga no meio-de-campo e um ataque com Barbosa, Hélio e Joãozinho não pode nem pensar em não vencer um timinho que tem Jair; Adilson Neri, Edvaldo, Marcelo e Felício; Wilson Mano, Adriano e Nívio; Antonio Carlos, André e Zé Carlos. Um bando de cortador-de-cana. Nem pensar em não vencer!

- Você vai no campo, pai?

- Com essa chuva, não vai dar. A febre não vai embora. Vai você. Vou ouvir pelo rádio.

O filho do palmeirense fanático - nem menos palmeirense, tampouco menos fanático - almoçou, vestiu a camisa verde, pegou a capa de chuva, andou dois quarteirões e entrou no estádio lotado de palmeirenses cantando à vitória e à classificação.

A bola rolou. Chovia. A torcida cantava. O palmeirense fanático ouvia pelo rádio. O gol do ponta-direita Antônio Carlos, do XV de Jaú, poderia ter calado a torcida, mas Barbosa, o ponta-direita do Palmeiras, logo empatou o jogo. O filho do palmeirense fanático cantava junto com a torcida. Chovia. O gol-contra do zagueiro Amarildo assustou um pouco, mas o centroavante Hélio empatou o jogo novamente, e o filho do palmeirense fanático, junto com a torcida, voltou a cantar.

O palmeirense fanático ouvia pelo rádio. Chovia. O lateral-esquerdo Felício, com o pé direito, fez o terceiro gol do XV de Jaú: 3 a 2. A torcida parou de cantar. Chovia. O céu parecia chorar copiosamente. Chorava como a torcida no estádio, como o filho do palmeirense fanático a caminho de casa, como o palmeirense fanático com febre, na cama.

Após dois longos quarteirões, com os pés encharcados da chuva e o rosto molhado de lágrimas, o filho foi ao quarto do pai. Da cama, num golpe, o pai perguntou: - Como isso aconteceu? Como isso pôde acontecer?

- Não sei. Só sei que foi assim.