segunda-feira, maio 30, 2011

vai barça!


Por conta do título da Champions League li mais uma vez o recente texto do escritor barcelonista Enrique Vila-Matas no El País sobre o recorde de gols batido por Messi e este Barcelona revolucionário.

Escritor inventivo, herdeiro de uma espetacular tradição literária marcada pelo lúdico e pelo fantástico e catalogador de anedotas sobre lendas como Rulfo, Rimbaud, Duchamp ou Walter Benjamin, Vila-Matas exalta como a forma de jogar de um time é capaz de transformar todo o pensamento sobre um jogo, talvez como ele mesmo procure fazer com a literatura: dialogando com as referências e procurando no futuro a que caminho elas poderiam levar. E seria talvez, ele diz, observando o Ajax de Cruyff, Neeskens e Rinus Michels, base da Laranja Mecânica [que depois migraria para o Barça], ou o Milan de Arrigo Sacchi, Baresi e os holandeses que Josep Guardiola encontrou os caminhos para acertar esse futebol espetacular e que tem se mostrado praticamente imbatível. Um futebol total no ritmo alucinante da contemporaneidade que rodada após rodada vem infligindo humilhantes goleadas a adversários tão fortes quanto o arqui-rival Real Madrid. E que acaba de conquistar, entre inúmeros outros títulos, a terceira Champions League das últimas seis.

Mas claro que essa magnitude não apareceu da noite para o dia. Já há décadas que no Barcelona floresce o futebol catalão, que, imagino por influência de Cruyff [técnico de Guardiola no próprio Barça], é herdeiro das melhores características do ofensivo futebol holandês e do espírito furioso espanhol, completando-o com o brilhantismo e a capacidade de improviso fora do comum das estrelas latino-americanas. Um futebol que ainda carrega consigo a bandeira de um povo oprimido e o orgulho de uma tradição de lutas que fez frente a uma sangrenta ditadura e que tem sua representação máxima na camisa azul e grená do time de Camp Nou, muito mais que um clube. ´

E é esse clube que vem moldando já desde que arrancou Cruyff do Ajax no início dos 70 esse filhote do futebol total, jogo em que se faz o adversário correr atrás de si a todo instante sob a ameaça de infligir-lhe as goleadas humilhantes. A bola é sempre do Barcelona e o adversário que a tome antes que ela chegue ao Messi, senão estão ferrados. Porque, como Cruyff nos seus grandes momentos, Messi é um jogador bestial, aquele que parte para cima dos adversários com eficácia impressionante e sempre que a bola chega. Os recordes de gols estão aí para confirmar. Aos vinte e quatro anos já pode ser afirmado como um dos cinco maiores da história porque é a estrela daquele que penso ser o maior time da história do futebol. É a estrela maior de um time que é uma Revolução. Não que Puyol, Vila, Xavi e Iniesta sejam meros coadjuvantes, mas é a capacidade letal de Messi que faz com que o espetacular jogo coletivo deles consiga ser tão incisivo, goleador e talvez até vencedor [a despeito de mesmo sem Messi terem vencido a última Copa do Mundo].

Mas imagino impossível pensar nessa filosofia de jogo barcelonista sem considerar a influência de Johann Cruyff [hoje técnico da seleção da Catalunha, onde conta com muitos jogadores das canchas culés], que foi também marcante como treinador do clube quando da conquista de sua primeira Champions League, no início dos anos noventa, tendo um time formado nas canchas, mas liderado por Laudrup e contando com Stoichkov e por pouco tempo Romário. Um futebol que foi se desenvolvendo, encontrando soluções e se moldando ao encontrar pelo caminho todos os melhores jogadores do mundo seguintes. Afinal, desde então qual dos craques do Barça não foi o melhor do mundo? Romário, Ronaldo, Rivaldo, Figo, Ronaldinho e Messi só nos últimos anos.

E ainda que o Barcelona sempre tenha sido grande e tradicional, contando com vários dos maiores craques da história [nos anos 80 o Barça ainda teve Maradona, mas a passagem do extraterrestre por lá foi ofuscada por contusões e suspensões], nunca antes o time foi tão espetacular quanto este, formado após várias brilhantes fornadas das canchas regidas por essa filosofia. A filosofia de um clube que manteve seu uniforme livre de marcas de patrocinadores até outro dia, mas que agora resolveu capitalizá-la. Ao menos para pagar como merecem seus custos sem precisar vender os jogadores. Porque sabemos que quase todo esse time histórico do Barça começou a jogar lá. E educados na filosofia do clube se adequaram perfeitamente a esta revolução que imprimem atualmente ao futebol com um sucesso poucas vezes visto.

Se o Barcelona joga há anos esse futebol total no ritmo alucinado do contemporâneo, com trocas constantes de posição, muitos passes [características mantidas como base da seleção campeã do mundo] e botando o adversário na roda, é porque conseguiu encontrar o sempre tão sonhado equilíbrio se baseando na ofensividade. É porque foi encontrando esse estilo de jogo e essa filosofia de basear o elenco nos jogadores formados na base, completando-os com os grandes talentos que trazia de fora. É porque nunca se intimidou com ‘a posição de orgulho de um povo a que foi alçado.

Para não me alongar mais, soube pelo texto de Vila-Matas que Cruyff disse que "Solo dos equipos, el Madrid de Di Stéfano y el Ajax de los años 70, habían sido capaces hasta ahora de reinventar el fútbol como lo está haciendo el de Guardiola" e escrevo este texto por concordar plenamente. E por ser exatamente por isso, por revolucionar ofensivamente o futebol, por sua filosofia sustentável do esporte, por ser bandeira de um povo e expressão de orgulho e pensamento, que hoje eu grito com toda a Catalunha, com Cruyff, Messi, Xavi, Iniesta e Vila-Matas: “vai Barça!”.

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