sexta-feira, novembro 23, 2007

O palco da Copa

O jogo de quarta, dizem, era um "ensaio" para a Copa do Mundo. Atrás de mim, na arquibancada azul, ouvi alguém falando inglês. Seria um inspetor da FIFA infiltrado? Provavelmente, não, já que sua interlocutora falava português. Imaginei como seria o relatório de um agente da FIFA se ele me acompanhasse no jogo.

Suponhamos que Joseph Blater dissesse a um inspetor fictício: "Vá ao Brasil e comporte-se como se você fosse um cidadão comum. Compre seu ingresso para um dos setores populares e assista ao jogo lá."

Em primeiro lugar, a ordem do presidente da FIFA não poderia ser cumprida à risca. O cidadão comum não teria R$ 60,00 para pagar pelo ingresso mais barato. Também precisaria utilizar o transporte coletivo para ir ao estádio. Por isso, o nosso inspetor fictício considerou "cidadão comum" aquele de classe média.

O inspetor da FIFA precisaria comprar o ingresso no primeiro dia de vendas. Deveria chegar muitas horas antes da abertura das bilheterias para ter alguma chance. Caso contrário, para não dizer ao chefe que sua missão falhara, precisaria recorrer aos cambistas, a não ser que encontrasse um amigo com ingressos sobrando. Ele foi conosco.

Para ir ao jogo de carro, prudência era necessária. O inspetor e mais cinco pessoas sairam de Pinheiros pouco após às 20 horas. Chegaram nas proximidades do estádio às 20:45. O carro foi estacionado numa das ruas residenciais que cercam o estádio. Logo, avistamos três senhores uniformizados, com colete azul escrito "segurança". Um deles, eloqüente, ditou as regras: "Com licença, sem querer intimidar. Aqui é um lugar seguro. Para o jogo de hoje, para garantir a segurança total, reforçamos o grupo e somos três. Por isso, hoje cobramos R$ 25,00. Um deles tinha uma prancheta em que anotava a placa dos carros. Combinamos R$ 20,00 a serem pagos no retorno. O inspetor perguntou se era um estacionamento a céu aberto?

Caminhamos em direção ao estádio, que estava realmente bonito com a iluminação especial. O Morumbi é, de fato, imponente. O público caminhava com certa organização. O inspetor estava com fome, queria comer um lanche antes de entrar. Sugeri um sanduíche de pernil ou de calabresa. Falei que dezenas de barraquinha vendiam este lanche há muitos anos, uma tradição da cultura futebolística brasileira. O inspetor adorou a idéia. Não encontramos, nenhum. O inspetor só poderia comer os kits do Habib's vendidos dentro do estádio.

Passar pela catraca foi tranqüilo. O inspetor reparou que os ingressos de algumas pessoas não passavam. "É falso", sentenciava o funcionário.

O problema foi acessar as arquibancadas. Para quem nunca foi às arquibancadas do Morumbi, o acesso às cadeiras é feita por uma entrada enorme que dá.... num pequeno muro. Ou seja, o torcedor não pode entrar em direção reta, ou seja, embora a entrada seja grande, ele só conseuge acessar as cadeiras lateralmente, num espaço pouco maior que uma porta comum. E como os lugares próximos às entradas são os que possibilitam a melhor visão do campo, os primeiros que chegam já se postam por ali. Os que chegam depois, param na entrada para ver onde tem lugar disponível, congestionando a entrada. O inspetor viu um policial militar próximo ao muro e foi perguntar a ele onde era o assento marcado em seu ingresso. Antes dele, um casal se aproximou e fez a mesma pergunta. "Onde você achar espaço, você fica" foi a resposta.

Como chegamos a apenas meia hora do início da partida, os únicos lugares disponíveis eram os que ficavam nos cantos e no alto. Só há degraus para subir as arquibancadas no corredor próximo à entrada. No mais, é preciso subir pelos próprios assentos. Ainda bem que o Sr. Blatter mandou um inspetor jovem. Não é fácil para um idoso subir um degrau de cerca de meio metro.

O inspetor assistiu ao jogo em pé. Não por frescura, já que o assento era imundo, mas porque todos à sua frente também estavam em pé.

No intervalo, ele quis tomar uma cerveja. "Só sem álcool", uma norma imposta há anos para diminuir a violência no estádio e que só existe em São Paulo. Contentou-se com um copo de água mineral a R$ 2,00 e foi ao banheiro. Papel higiênico, sabonete, toalha de papel são artigos ordiários para um shopping center, mas considerados de luxo para o estádio de futebol. Sorte que ele não foi aos sanitários da numerada, cuja entrada tem a mesma lógica do acesso às arquibancadas.

O que será feito até a Copa de 2014? Haverá estacionamento? A estação do metrô estará concluída? Os acessos serão melhorados? O torcedor sentará no assento marcado no ingresso? Haverá cerveja? Os banheiros serão decentes? Bem, enquanto nada disso for feito, o pernil pode voltar...