terça-feira, março 04, 2008

Vasco poliárquico?

Hoje eu me assustei com a notícia que me veio com as seguintes chamadas fluminenses:

Roberto Dinamite: 'Quero uma eleição limpa', no Jornal dos Sports;

Vasco terá nova eleição para presidente em 30 dias , em O Dia;

Justiça dá vitória à oposição e devem ser marcadas eleições no Vasco, no Jornal do Brasil Online;

Justiça anula eleição do Vasco, no Globo Esporte;

Eurico perde apelação contra a anulação da eleição, no Lance.

Ordenei as chamadas começando pela mais pró-Dinamite e finalizando na mais amiga do Eurico. Nem a imprensa esportiva tem como ser imparcial.

Não boto muita fé na nossa Justiça. Não que as juízas e os juízes sejam todos corruptos ou pecadores de qualquer ordem. Mas as idas e vindas, os meandros tortuosos pelos quais as causas circulam em nossos Tribunais não são um ambiente propício para que as divergências sejam resolvidas em tempo razoável.

Ainda não se deu prioridade à seguinte regra constitucional:
a todos, no âmbito judicial e administrativo, são assegurados a razoável duração do processo e os meios que garantam a celeridade de sua tramitação. Inciso LXXVIII do Artigo 5o.

O Brasil é uma democracia desde 1988. Mas não se pode pensar que tudo tenha mudado da água para o vinho só em função de um novo pedaço de papel. Afinal, o Brasil é o País que tem as leis que não pegam e as pegam. Fazer a Constituição pegar é, no fundo, também uma responsabilidade de cada cidadão brasileiro, que a exerce quando respeita, por exemplo, as leis de trânsito.

Ao estudar a democracia americana, Robert Dahl criou o conceito de poliarquia. Disse, basicamente, que o poder não nunca se concentra totalmente na mão de um ou se divide igualmente entre todos. Ou seja, não há um absolutismo ou uma democracia puros. Assim, na medida que o poder se espalha em uma sociedade, passa-se de um regime autoritário para um poliárquico. O ideal democrático seria atingido se se cumprisse os seguintes critérios:
1. Participação Efetiva;
2. Votação igualitária em estágio decisivo;
3. Compreensão profunda do processo;
4. Controle da Agenda;
5. Inclusão.


O Eurico Miranda, no nosso caso prático, sentiu na pele a dureza de perder o Controle da Agenda da política vascaína.

Oxalá, alguns vascaínos sejam tocados pela idéia de que são cidadãos, não súditos, também em relação aos políticos brasileiros. Uma educação para a cidadania não escolar. Aliás, não há como não comparar os índices Gini, de distriuição de renda (inclusive educação), com o Corruption Perceptions da Transparency International. Quanto menos um povo estuda, mais é roubado.


O Vasco da Gama, cantado em Os Luíadas, deve ter se orgulhado da oposição vascaína ter proposto algo novo -- respeitos a regras claras.

Muita gente acha que democracia é só uma ideologia igual a tantas outras. Mais uma forma de se exercer o poder. Contudo, a própria história do Clube de Regatas Vasco da Gama mostra que se deve escolher um titular em função da bola que ele joga e não por ser o cara filho de alguém importante ou ter a pele clara. O resultado de se tratar todos igualmente é que os melhores ocupam as posições de destaque na sociedade e produzem mais para todos.

Alguém duvida que o Brasil nunca seria Penta se os negros e os pobres continuassem a serem excluídos dos campos em função do tom de pele ou da classe social? Se você concorda que sem Pelé, Garrincha, Romário e os Erres de 2002, não haveria Copas conquistadas; pense em quantos bons médicos, professores e administradores públicos o Brasil jogou e joga fora? O Machado foi o brasileiro do século retrasado e Pelé do passado. Ambos venceram o preconceito social e racial brasileiro em função de talentos sobre-humanos.

Tomará que os brasileiros percebam cada vez mais que respeitar o ideal democrático é fazer algo bom para si próprios porque há certas coisas que só são obtidas coletivamente. Conquistar uma Copa ou uma boa saúde são exemplos dessas vitórias que só vem se a equipe jogar em conjunto com os melhores como titulares.

Abraços,