segunda-feira, abril 06, 2009

ABDICAÇÃO

Em homenagem à coerência que a Associação Portuguesa de Desportos tem com a história da Terrinha, escolhi o poema Abdicação, do maior poeta português deste atual Portugal, Fernando Pessoa.

Muitos podem considerar Luís Vaz de Camões maior que Pessoa, respeito, mas o Portugal épico cantado pelo poeta guerreiro foi-se com a morte de D. Sebastião. O sebastianismo fatalista dos lusos consome por completo as chances da Lusinha ganhar qualquer título mais importante. O empate na Vila foi a final que o time não jogou.

ABDICAÇÃO

I

Sombra fugaz, vulto da apetecida
Imagem de um ansiado e incerto bem,
Aereamente e aladamente vem
E um pouco abranda em mim o horror da vida.

O esforço inútil, a penosa lida,
De que, salvo sofrer, nada provém,
O receio, a incerteza e o desde
Mitiga e sara, como a quem olvida.

Irreal embora, o teu momento é teu.
Nesse minuto, em que deveras prendes
Toda a alma, e és o seu sol e o seu céu,

És toda a vida, e o resto é a sombra e o trilho.
‘Splende em verdade, ó sombra, enquanto ‘splendes,
E eu morra para mim nesse teu brilho.


II

A minha vida é um barco abandonado,
Infiel, no ermo porto, ao seu destino.
Porque não ergue ferro e segue o atino
De navegar, casado com o seu fado?

Ah, falta quem o lance ao mar, e alado
Torne o seu vulto em velas; peregrino
Frescor de afastamento, no divino
Amplexo da manhã, puro e salgado.

Morto corpo da acção, sem a vontade
Que o viva, vulto estéril de viver,
Boiando á tona inútil da saudade —

Os limos esverdeiam tua quilha,
O vento embala-te sem te mover,
E é para além do mar a ansiada Ilha.


III

Entre o abater rasgado dos pendões
E o cessar dos clarins na tarde alheia,
A derrota ficou como uma cheia
Do mal cobriu os vagos batalhões.

Foi em vão que o Rei louco os seus varões
Trouxe ao prolixo prélio, sem a ideia.
Água que mão infiel verteu na areia.
Tudo morreu, sem rasto e sem razões.

A noite cobre o campo, que o Destino
Com a morte tornou abandonado.
Cessou, com cessar tudo, o desatino.

Só no luar que nasce os pendões rotos
‘Strelam no absurdo campo desolado
Uma derrota heráldica de ignotos.


IV

São vãos, vãos o meu sonho e a minha vida,
As imagens que busco, dor-recreio,
Para o meu ócio de cansaço cheio,
Para o meu ser deposto e fé perdida.

Nada vale. Renova a despedida
Todos os dias renovada, ó anseio
Que nem em ti sabes querer, baqueio
Surdo e ignóbil da púrpura e da lida.

Réu confesso da tua impenitente
Indecisão, de inútil reprovada,
E, reprovada, vil por persistente,

Aceita o nada a que te o Fado obriga,
E abdica, qual rainha destronada
Que for mendiga, e torna a ser mendiga.


V

Toma-me, ó noite eterna, nos teus braços
E chama-me teu filho.
Eu sou um rei
Que voluntariamente abandonei
O meu trono de sonhos e cansaços.
Minha espada, pesada a braços lassos,
Em mão viris e calmas entreguei;
E meu ceptro e coroa — eu os deixei
Na antecâmara, feitos em pedaços
Minha cota de malha, tão inútil,
Minhas esporas de um tinir tão fútil,
Deixei-as pela fria escadaria.
Despi a realeza, corpo e alma,
E regressei à noite antiga e calma
Como a paisagem ao morrer do dia.


VI

Forma inútil, que surges vagarosa
Do meu caminho, e aumentas minha dor:
Tua postiça luz não tem calor,
Teu vulto esfolha-se, como uma rosa.

Porque tão falsamente piedosa
Na hora mais negra do meu amargor
Vens com teu brilho errar o meu torpor
Que mais valia que esta ‘sp'rança ansiosa?

Por que a mão irreal para mim ‘stendes
Se não me guiarás, nem me conheces?
Se nada podes dar, para que ‘splendes?

Ah, deixa ao menos imitar o sono
Meu ser, (morto) na ‘strada onde tu desces,
Sozinho ao menos com seu abandono!


VII

Com a expressão a dor menos se apaga
E a dor maior se anima, como o vento
Apaga o lume frágil de um momento,
E a grande chama sacudindo afaga.

Toda a esperança morta, a ânsia vaga,
A mágoa certa do meu pensamento,
Com exprimir-se, mais conhece o aumento,
Porque é consciente e com mais

Mas não dizer a dor é ter só dor
Dizê-la é aceitá-la, e aceitá-la
É por presente tê-la, a ter maior.
18 - 9 - 1917

(In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005)

Saudações,